Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EUA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de março de 2012

Síndrome do Regresso

Sabe aquela depressão pós intercâmbio que eu já mencionei aqui? Ontem, eu descobri que isso tem outro nome: síndrome do regresso. A matéria da Folha.com diz absolutamente TUDO pelo o que eu e um sem-número de pessoas passamos. É um alívio saber que tudo isso é completamente normal e até caso de estudos. Se você está se preparando para sua volta, vale a pena ler para se ter uma ideia do que está por vir. (Não deixem de ler, na matéria, a Montanha-Russa do Viajante. Não poderia ser mais real!)

Mas quem eu mais aconselho a ler o artigo são familiares e amigos de intercambistas! Para que percebam que nada de errado realmente está passando com quem acabou de retornar, é só uma fase - e que exige muita paciência. Tomo meu caso como exemplo: com seis meses desde a minha volta, eu ainda acho tão amargamente inevitável mencionar ou comparar os EUA com o Brasil em toda conversa com amigos e conhecidos, que eu consigo até ouvir os pensamentos "Lá vem essa conversa de novo". É claro que eu já me sinto em casa, mas nos primeiros meses meus pais chegaram a achar que eu não era mais feliz no Brasil. E o mesmo chegou a passar pela minha cabeça inúmeras vezes.

No entanto, a verdade é que a fase pós intercâmbio demora mesmo pra passar. E descobrir que existe a síndrome do regresso e que este comportamento foi comprovado por estudos é como ter a TPM pra culpar o mau humor! O artigo me deu um pouco de conforto e é por isso que eu compartilho aqui pra tentar ajudar outros intercambistas e para me fazer compreendida quando menciono sobre a depressão pós intercâmbio.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Oito meses


Comemorei o oitavo mês aqui na maior festa de tinta do mundo, Day Glow Party, no club Ibiza em DC. Quatro ambientes diferentes, DJ's diferentes (inclusive o DJ Manifesto, do qual viramos fãs depois do sábado, dia 16), e tinta "voando" pra todos os lados. Todo o aperto e desorganização que não passei nos shows nos EUA, passei ontem. Digno de fim de show no Brasil.


A festa era under 21, o que significa que era permitida entrada de jovens acima de 18 anos. Americanos adolescentes são loucos. As meninas são drama queens. É duro generalizar, mas é o que se vê.

Foi bem divertido, mesmo com todos os poréns. Parece que todos estão uniformizados, vestidos de branco. No fim da festa, não há uma única roupa não tingida de laranja, verde, pink e amarelo neon.

Flight back home

Eu não tinha intenção de escrever sobre isso hoje (22). Até porque, eu prometo a mim mesma evitar ao máximo os mimimi's ou posts emocionados. Mas foi impossível depois de receber, exatamente no meu eight-months-anniversary day, a carta do Au Pair in America com as informações para marcar meu voo de volta para o Brasil, caso eu decisa não estender o programa.

Agora não tem mais escapatória. Os meses passaram num piscar de olhos, e depois de fugir da decisão de ficar mais ou não, com a desculpa de que "ainda falta muito", eu vou ter de dar uma resposta. Tenho um mês para acertar todos os papéis, seja qual for minha decisão.

São nos aniversários da minha estadia aqui que eu caio na real o tanto que eu estou longe de família e amigos. É meio surreal. Graças às facilidades da internet e à possibilidade de ve-los pela webcam, a falta deles é um pouco enganada, o suficiente para não sofrer de saudades o tempo todo. Mas quando paro pra pensar que já estou aqui há oito meses, a distância e saudade cai que nem pedra na cabeça.

Mas pensar em ir embora, surpreendentemente, causa resultado bem semelhante agora. Deixar essas crianças não vai ser fácil.

Deixar a vida aqui não vai ser fácil.

PS: comecei a escrever esse post no dia 22, quando completei oito meses aqui nos EUA. Hoje, dia 25, completo oito meses na casa da família americana.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sete meses

Completo hoje sete meses nos EUA. E o menino mais velho que eu cuido completa hoje cinco anos de vida. É emocionante o quanto se presencia no crescimento de uma criança em poucos meses. Ele sabe escrever agora e me enche de orgulho. Foram horas copiosamente, tarde após tarde, praticando letras juntos na mesa da cozinha. Eu estava lá, no ponto de ônibus, esperando com ele no primeiro dia do prézinho. Ele entrou, foi e voltou sozinho que nem gente grande.

O mais novo tem três anos. Idadezinha complicada. Cheia de "conquistas", no entanto. Eu o vi aprender a nadar, a usar a privada (e, graças ao bom Pai, não precisar mais de fraldas), a escrever o próprio nome (esse por mérito exclusivamente meu), ir ao primeiro dia de aula na vida dele.

Já vi o gosto dessas crianças mudar a cada mês, em relação a brincadeira, comida, medo, filmes, amigos... E até o fim da minha estadia, vou presenciar mais umas centenas de mudanças. E apesar de soar exagero, as vezes, eu sinto amor de mãe (ou talvez de irmã mais velha) por esses meninos. São nove horas diárias de convívio como au pair - e o resto das horas como membro da família. E querendo ou não, pra se realizar um bom trabalho é necessário se passar por mãe e cuidar deles como filhos. Com o carinho e broncas e proteção e castigos e incentivos. Tudo no seu devido momento. E, sem falsa modéstia, I am a hell of a good au pair!

A maioria de meninas au pairs que conheço diz que, depois dessa experiência, começaram a pensar seriamente se querem ou não ter filhos. Eu tenho certeza que sim.

Estudos

Finalmente, comecei a estudar. Nunca pensei que os estudos seriam um dos meus maiores problemas aqui, mas, aparentemente, ter o inglês bom limita as opções. Entende-se como quase fato que au pair vem para os EUA com o objetivo de aprender inglês, e não aperfeiçoá-lo. De qualquer forma, minha intenção inicial era, sim, estudar inglês. Quando cheguei aqui, no entanto, tanto meus pais americanos quanto a minha counselor me disseram que seria perda de tempo. As aulas de "inglês como segunda língua" que praticamente toda au pair da região frequenta, infelizmente (e isso é unanimidade), não são boas.

Foi uma batalha para conciliar preço, horário, créditos (aqueles que toda au pair tem obrigação de estudar durante o ano e não é qualquer escola/curso que conta) e, a parte mais difícil, algo que me interessasse. Não há muitos cursos em comunicação na região, e as universidades que os têm são absurdamente caras. Para agravar, a counselor, que supostamente está aqui para nos dar auxílio, não foi de muita ajuda. No final das contas, decidi satisfazer um dos meus interesses particulares/profissionais e comecei hoje um curso de intérprete, Spoken Language Interpreter. As aulas, entretanto, não valerão créditos, o que significa que eu ainda preciso preenche-los de alguma forma que eu ainda estou trabalhando para resolver.

Mudaram as estações

De qualquer forma, tive um verão incrível - que infelizmente acabou ontem. Agora é começar a se preparar para o frio.

domingo, 22 de agosto de 2010

Seis meses


Meio ano. Metade do caminho. Para comemorar a data, um prego resolveu se atarracar no pneu traseiro do meu carro. Precisei ligar pros pais americanos irem me socorrer, esperando por quase uma hora na cidade do lado da minha. Para manter o costume, Ana Paula estava comigo. Chegamos juntas aqui e comemoramos juntas - dentro do carro inabilitado embaixo de um sol infernal - os seis meses na terra do tio Sam. Com a gente, a nova au pair húngara que completou 24 anos (pelo horário na Hungria) enquanto esperávamos pela ajuda mecânica. Que situação!

Time goes by so fast

As vezes parece que passou tão rápido, as vezes parece que estou aqui há uma eternidade. Certas coisas são tão fáceis de acostumar. Sempre me pego pensando em situações e conversas que me aconteceram no Brasil, antes de me mudar, como se tivessem sido em inglês. Parei de converter mentalmente o dólar pro real antes de comprar algo. Quando voltar, terei de reaprender a dirigir um carro manual, e a cama de solteiro vai parecer pequena depois de passar um ano dormindo numa queen size. O arroz e o feijão, tão simplezinhos, me fazem muita falta. O closet já tem coisas suficientes pra umas três malas.

Half way done. Seria o momento pra fechar pra balanço. Lembrar dos bons e maus momentos, o que me motiva e desmotiva. Pesar os prós e contras de ficar mais um ano. Sim, eu preciso tomar essa decisão o quanto antes possível. Vai ser a decisão mais difícil da minha vida.

Enquanto não preciso dar a resposta, aproveito como se não houvesse amanhã.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cinco meses


O celular desperta às 8 am. 8:30 am (porque é assim que os americanos escrevem as horas) não é um horário ruim para se começar a trabalhar. Até porque tem sido difícil deitar antes da meia noite. Arrumar-me, dar uma olhadinha rápida na internet para não perder o costume. Mandar e-mail diário para a mãe. Subir para o andar de cima.

Preparar café da manhã. Meu e deles. As crianças. Passar o dia com duas criaturinhas que mal batem na cintura. Tem horas tão gratificantes, que a vontade é apertá-los até a bochecha cair da cara.

- Eu quero doce!!! (Em inglês)
- Como se diz??? (Em inglês)
- POR FAVOR! (Em um português de "R" puxado)

E tem hora que a vontade é descabelar-me. Exige muita paciência, não nego. Acreditarei até o fim que esse é meu maior aprendizado dessa experiência toda. Deixar de ser uma pessoa impaciente.

Quebrar as unhas brincando de Lego. Tomar um solzinho na piscina. Dirigir mais de meia hora para nos juntarmos às crianças de outras amigas au pairs.

Dirigir. São nas horas que estou dentro do carro, de janelas fechadas, ar condicionado ligado, minha playlist tocando, cantando, vendo aquele monte de árvores, áreas verdes, casas... que eu mais agradeço por estar aqui.

Gastar meus fins de tarde e as noites da semana com diversos passatempos: correr, fazer as unhas, Wal Mart, Hallmark, Target, junk food, cozinhar, shopping, TV, So You Think You Can Dance, e, é claro, minha fiel companheira internet. Reservo esse período do dia para matar quem me mata. A saudade. Msn, redes sociais e o salva-vidas Skype.

E então, chegam eles. Os finais de semana. Eu adoro minhas semanas, mas são os findes que fazem tudo valer a pena. Ter um estado (e por que não um país?) inteirinho pra conhecer. Qualquer lugar que vá é novidade. E mesmo que visite pela segunda (terceira, quarta...) vez, a sensação de viagem, de turista realizado, vai estar sempre presente. É surreal estar na capital da maior potência mundial. Ver de perto o que só conhecia por TV, foto, imaginação. Ouvir o DJ na balada dizer: "We are in the most powerful city in the world"! Balada. Nunca fui muito de ir em clubs, mas aqui parece ser exigência. Fim de semana e balada são quase sinônimos. E isso me diverte. São nesses ambientes que é possível reparar na cultura e comportamento americanos na melhor de suas formas. São delas que saem as melhores histórias.

E o domingo será sempre o mesmo em qualquer parte do país: melancólico, nostálgico, com cara de fim de festa.

E começa tudo de novo...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Where dreams come true


Nunca achei que teria problemas em escrever sobre uma das únicas certezas na minha vida: de que um dia eu iria para a Disney. Quando se sonha com algo desde criança, a consequência natural é uma hora - seja lá quando - concretizá-lo. Mas tudo que rascunhava aqui me parecia clichê demais. Dizer que é preciso acreditar nos sonhos, que eles não envelhecem, ou tentar explicar o quão mágico é aquele império de Walt Disney - e que também não há idade para viajar pra lá - seria repetir o já falado.

Portanto, direi apenas - um dos clichês - que a Disney é, literalmente, um lugar onde os sonhos se tornam realidade.

Essa viagem me ensinou muito sobre realizações de sonhos. Não me preocupo mais em quando se concretizarão, mas sim em continuar a acreditar neles. Eles virão na hora ideial e de forma natural. E assim que tem de ser.

Brenda

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FAQ

Em um intervalo de uma semana, umas cinco meninas vieram me perguntar sobre como é ser au pair, interessadas em fazer o mesmo. Por isso, resolvi escrever esse post com algumas informações sobre a vida de quem vem pra cá nesse tipo de programa. Pegou-me de surpresa o fato de que quase quatro meses é tempo suficiente para passar de quem pergunta pra quem responde. E estando aqui, posso ser sincera sobre algumas coisas que não são ditas antes e eu gostaria de ter tido conhecimento. Lembrando que toda regra tem sua exceção.

Ser au pair é uma das maneiras mais baratas de "intercâmbio" para aprender o inglês. Esta é a principal e quase unânime razão pela qual meninas se interessam pelo programa. O salário é razoável, mas dá para viver muito bem, uma vez que não é preciso gastar com casa nem comida - e é por isso que au pair é um bicho que viaja e está sempre em festa. Morar com uma família americana te força a praticar o idioma todos os dias, o tempo todo.

O fator financeiro também é a razão principal pela qual os americanos optam por ter uma au pair. Contratar uma nanny é caro. Na hora de fazer o match com a família, é preferível achar pais super legais a filhos fáceis de cuidar. Crianças dão trabalho, isso é fato. Portanto, é mais importante se dar bem com quem vai ser responsável por você durante o ano.

As famílias integrantes do programa - mesmo sendo mais recompensador financeiramente - têm dinheiro. Isso significa que vivem numa casa grande, em cidade pequena - o que, para eles, é sinônimo de vida boa. É muito difícil cair em cidade grande. Não se escolhe onde vai morar, e sim a família.

Para viver realmente bem aqui é preciso uma série de detalhes aparentemente insignificantes: não ter de dividir banheiro com as crianças e em que parte da casa fica o quarto da au pair; rotina e horário das crianças; se há metrô por perto e quantas au pairs vivem na região; se os finais de semanas serão off; e, para mim o mais importante, o uso do carro e divisão de gasolina. Quando estiver em processo de match, não tenha medo de fazer perguntas para as famílias antes de fechar com qualquer uma.

Crianças mais novas dão mais trabalho, além de não irem para escola todos os dias. Experiência própria. As mais velhas, normalmente, têm inúmeras aulas durante a semana, fora do horário escolar: football, soccer, baseball, cheerleading, teatro, balé, natação... As vezes, au pairs são contratadas para serem motoristas.

A counselor, pessoa da agência responsável pelas meninas da região, liga uma vez por mês. Ela não ajuda em nada no processo de achar o que estudar e nem aparenta se preocupar com isso. Por este motivo é comum ver au pairs esquecendo que vieram para estudar também. A minha impressão é que o estudo neste tipo de programa é como uma máscara para não aparentar que estamos aqui só a trabalho.

Muita gente comenta o quanto somos corajosas de vir pra cá. Somos mesmo. Au pair trabalha bastante; americano não é receptivo com estrangeiro; parentes da sua família vão te tratar como empregada. Entretanto, é necessário uma boa dose de coragem contratar alguém de outro país, que você nunca viu antes na vida, para morar na sua casa e cuidar dos seus filhos. Portanto, a relação entre au pair e família tem de ser uma via de duas mãos.

Eu tive sorte: adoro a família que escolhi; tenho carro e GPS só meus; meu quarto e banheiro são no basement, bem reservados; moro numa cidadezinha bem localizada, a 20 minutos do metrô e a meia hora de Washington DC; tenho os finais de semana livres. No entanto, cuido de dois meninos pequenos, o que significa ter de passar o dia todo com eles - até setembro, quando as aulas voltam e a nossa rotina muda.

Cada caso é um caso. São muitos os exemplos, e cada família tem seu lado bom e ruim. Assim como o programa de au pair e absolutamente tudo na vida. Mesmo com todos os apesares, ser au pair é uma forma muito legal de viver um ano em outro país. Eu recomendo e me surpreendo com a quantia de brasileiras que encontro.

Estou aberta a mais perguntas, que responderei com prazer aqui no blog. E aproveito para agradecer minha amiga Camila que pacientemente me respondeu um milhão de perguntas quando eu estava no meu processo de match - e ela já passava para o segundo ano como au pair.

Brenda

segunda-feira, 7 de junho de 2010

The book is on the table

Com o U2 eu aprendi que se eu me machucar, eu tenho um bruise. Linkin Park me ensinou que crawl é rastejar. Se eu quiser viajar, eu tenho que me hospedar em uma inn, igual a Dragonfly da Lorelai de Gilmore Girls.

Se estiver muito quente, eu vou começar a melt, como o Bert, do The Used. Agora, se estiver muito frio, como no E.R do County Hospital de Chicago, eu vou estar freezing.

Neo é o escolhido do Matrix, mas é Bruce Dickinson quem canta "I am the chosen one". My Chemical Romance me ensinou sobre armas: para disparar uma bullet, eu preciso apertar o trigger.

Desde que me mudei, agradeço pelo tempo que passei em frente à TV assistindo séries e filmes americanos, ou vendo tradução de música na internet. Prestar atenção nos detalhes não foi a toa e prova que dizer "Ou eu olho para a tela ou eu leio a legenda" é desculpa de preguiçoso.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Três meses

A única certeza do meu terceiro mês é de que nada é certo. De tempo em tempo, eu vou ter uma sensação diferente sobre a vida aqui. Uma hora eu tenho várias amigas brasileiras, pra ligar, conversar, sair todo fim de semana. Na outra, metade delas já precisa voltar pro Brasil.

Em alguns dias, a ficha cai e eu nem consigo acreditar que eu realmente moro nos EUA. Sinto-me parte daqui, como se estar nesse país fosse destino. Como se falar inglês já fizesse parte de mim e eu pertencesse a essa cultura. E eu consigo me ver vivendo aqui por dois anos, sem problemas. Por outro lado, tem horas que a realidade - de que eu estou longe de tudo e de todos - aparece sem dó, e a sensação predominante é solidão.

Talvez, a única certeza seja a de que eu nunca mais vou ser a mesma. Eu não tenho nada certo para quando eu voltar daqui e a minha vida no Brasil ainda é um grande ponto de interrogação. Mas não vai ser nunca mais o que costumava ser. As vezes, me bate uma vergonha doída da vida fácil que levava. Eu precisei mudar de país para ter cara de pegar o carro e dirigir mais de meia hora sozinha, sendo que, antes, eu tinha medo de dirigir de Santa Bárbara d'Oeste até Campinas. Não consigo acreditar como eu nunca tive coragem de pegar um ônibus para ir para São Paulo com medo de me perder, e ser capaz de pegar carro/metrô/ônibus de Washington DC até Nova York. É claro que me perdi, mas quem tem boca não vai a Roma? E, para agravar, pedir e receber informação só em inglês.

É preciso sair do casúlo para aprender a viver de verdade. São detalhes como esses que fazem perceber o quão covardes a rotina nos transforma. É necessário uma mudança drástica para fugir do cômodo.

E é claro, para finalizar as mudanças ocorridas durante meu terceiro mês, nenhuma experiência em outro país estaria completa sem a presença de uma figura masculina local. Um toque de seriado teen americano na minha estadia. Sem futuro, no entanto.

Sábio é Gregório de Mattos: firmeza somente na inconstância.

Brenda

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Dois meses

O que o tempo não faz... Com o simples passar dos dias, a sensação de que eu posso pertencer a esse lugar apareceu, assim, sem ser percebida. De repente, a saudade de casa não doía tanto e eu já conseguia abrir a geladeira da casa nova sem me sentir uma intrusa. O meu quarto e meu banheiro começaram a ter mais a minha cara, com as minhas coisas espalhadas: bijuterias, shampoo, havaianas, fotos... E eu conseguia dirigir pela área sem a sensação medonha de estar perdida não importa onde.

Falar inglês o tempo todo já não incomoda mais. Mas nunca na minha vida senti tanto orgulho de falar português. Se encontrei uma pessoa aqui que soubesse que no Brasil a língua oficial não é o espanhol foi muito. Ser estrangeira nesse país é tão comum quanto ser corinthiano em São Paulo. É mais fácil encontrar alguém de fora do que um americano.

Tenho conta no banco, cartão de débito, cartão de fidelidade do mercado. Recorto cupons de descontos no jornal. Não cozinho mais, só aqueço no forno as refeições que já vem preparadas, vendidas nos diversos corredores de comida congelada. Churrasco significa hamburguers feitos em casa, e hot dog significa só a salsicha.

Um mês pode não ser suficiente para se acostumar totalmente a viver numa nova cultura. Um mês a mais pode fazer toda a diferença.

Brenda

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um mês

Hoje faz um mês que estou vivendo a cultura americana. Em uma conversa com o pai da família com quem eu moro, ele disse: "Caso não tenha notado, você está no melhor país do mundo". É esse o pensamento de todos aqui na América - e é assim que eles se intitulam, como se nada mais existisse na América. Os americanos são egocêntricos, e estão cansados de ver estrangeiros, portanto, não são muito receptivos.

As casas de subúrbios são espalhadas entre árvores, bosques, lagos... As famílias mais bem apossadas gostam destas áreas para que as crianças possam brincar nas ruas sossegadas e fugir da bagunça das cidades grandes. Já vi tantos esquilos que perdi a conta, e uns quatro veados atropelados na beira da estrada. Dirigi um carro automático pela primeira vez, me perdi, me achei e comecei a decorar o nome das ruas. Google Maps é meu companheiro constante aqui.

Em um mês, assisti a coleção de Star Wars o suficiente para decorar falas e os desenhos da Nickelodeon Jr até saber todas as músicas. Dancei Lady Gaga em balada. Passei um tarde em Washington DC, fiz compras no Wal Mart, comi donut no Dunkin Donuts e panquecas de chocolate no iHop.

Já falei mais em inglês que eu havia falado no resto da minha vida. E lidei - ainda lido e vou lidar até o dia de ir embora - com a maior saudade que já senti. Um mês não é suficiente para se acostumar totalmente a viver numa casa nova, com cultura, costumes e língua diferentes. Aliás, absolutamente tudo é diferente: as casas, as ruas, a posição das casas nas ruas, as estradas, as regras no trânsito, o clima, as bebidas, a comida...

Mas já tive tempo suficiente para aprender inúmeras coisas e me testar em diferentes situações como nunca antes. Tudo isso em um mês. E pensar que eu tenho mais 11 pela pela frente...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Jogging with myself


[13 de março, quando comecei a escrever esse post]

Eu sei que mal comecei e já estou em falta com o meu blog. E eu sei também que não tenho elogiado muito os USA. Mas estou, aos poucos, me desligando da minha vida brasileira e entendendo que esse é o país em que eu moro agora (pelo menos por um ano). Só agora começo a apreciar o que tenho vivenciado.

Hoje, resolvi sair caminhar/correr na vizinhança. Uma frase permaneceu na minha cabeça durante todo o caminho: "Estou em um filme"! É assim que eu sinto em todos os lugares que eu vou por aqui.

[27 de abril de 2010]

E parece coisa simples, mas meia hora correndo todos os finais de tarde, com o sol quase se pondo, é uma descarga de bem-estar suficiente para me pegar quase todos dias olhando para o relógio e pensando comigo mesma "Calma, falta pouco pra ir correr". Ainda mais depois dos dias mais cansativos. Foi criando essa distração na minha rotina que eu consegui me conciliar com os EUA quando tudo o que eu conseguia pensar era "Esse não é o meu país".

Soa como exagero, mas correr aqui na vizinhança as vezes dá raiva de tão perfeito. As árvores, um ou outro riacho com pedras, esquilos, o campo de futebol americano com as crianças treinando, os motoristas parando o carro para esperar os pedestres atravessarem a rua. Ouvindo música, dá mesmo a completa sensação de estar em um filme, com trilha sonora e tudo.

Na primeira semana que corri por aqui, era início de primavera, com as árvores carregadas de flores, e a minha playlist do celular me reservou "Quelqu'un m'a dit" da Carla Bruni no momento propício. Tudo combinou tão certo que deu até raiva de tão bonito.

No fim, o motivo principal de decidir correr - tentar manter a forma nesse país de junk food - ficou pra segundo plano.

Brenda

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Babá?

- E agora que acabou a faculdade, o que pretende fazer?
- Vou passar um ano nos Estados Unidos!
- Noooossa! Que legal!!!! O que você vai fazer lá?
- Trabalhar e estudar.
- Trabalhar de quê?
- Vou ser au pair. Já ouviu falar sobre o programa de au pairs?
- Não... O que é isso?
- Bom, eu vou morar com uma família americana, cuidar das crianças delas durante o dia, e ela vai me pagar uma bolsa de estudos.
- Ah, legal... Então você vai ser babá...
- Uhum!
-Hum...

Perdi a conta de quantas vezes eu tive esse diálogo. Desconhecidos, amigos, e até mesmo familiares ficavam empolgados ao ouvir "vou passar um ano nos Estados Unidos", mas devolviam um muxoxo desacreditado quando ouviam "cuidar das crianças". Não posso culpá-las, porque já fui responsável pelas mesmas reações uma vez.

A verdade é que eu tinha preconceito com esse tipo de intercâmbio e agora pago pela minha boca. Para que o mesmo não aconteça com desconhecidos/amigos/familiares, explico o que significa ser au pair.

Au Pair In America é uma agência britânica que trabalha em parceria com agências de intercâmbio do mundo todo selecionando meninas para serem au pair nos EUA (o processo de seleção é extenso e pode ser assunto de outro post). Eu fui orientada pela Experimento, de Campinas.

Vou morar na casa de uma família americana, minha host family, e deverei ser recebida como parte dela. Devo vivenciar a cultura americana, participar de eventos familiares e fazer minhas refeições com eles. Serei babá das crianças da família e receberei um salário semanal. Além disso, a minha host family deve pagar uma bolsa de estudos e eu posso escolher entre diversas opções de cursos disponíveis pela APIA. Estudar durante a estadia nos EUA é uma obrigação do intercâmbio de au pair.

Uma espécie de psicóloga/conselheira – counsellor -, contratada pela APIA, é responsável pelo grupo de au pairs – cluster - da região. Ela organiza um evento mensal entre as meninas (seja um jogo de baseball, patinação no gelo, palestras, etc), e reuniões periódicas individuais para acompanhar o processo de adaptação de cada uma.

É lógico que ser babá é a parte mais importante e de grande responsabilidade no programa – e eu estou ansiosa para conhecer meus host brothers. No entanto, não me esqueço o que a gerente da Experimento disso na palestra, em julho: "Ninguém entra no programa de au pair porque o sonho é ser babá ou porque quer ser especialista em cuidar de crianças. Mas se a sua vontade é aperfeiçoar o inglês, viver fora, conhecer outra cultura, criar novas amizades... Ser au pair é uma oportunidade para realizar tudo isso".

Brenda

PS: A expressão "au pair" é francesa e, ao pé da letra, significa "ao par".

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

One week to go

A criação desse blog foi o resultado de uma sucessão de oportunidades aproveitadas. Eu finalmente ter dado atenção aquele anúncio roxo da agência de intercâmbio espalhado pela faculdade, em julho. A palestra sobre o intercâmbio agendada para a semana seguinte de eu ter descoberto a agência. O apoio dos meus pais. O último semestre da minha faculdade de jornalismo. O meu dinheiro guardado. A incerteza sobre 2010.

Interligados, estes fatos me impulsionaram para o que eu definiria como a realização de um dos meus maiores sonhos. Morar fora. Num país novo e desafiador para mim. Vou viver nos EUA durante um ano.

Foi uma longa caminhada até agora. O processo para entrar no programa de intercâmbio e planejar a viagem é demorado, e se ainda estivesse incerta teria desistido durante esses últimos seis meses. Mas agora, com meu visto concedido, minha permissão internacional para dirigir, e uma semana para partir, eu atingi o que sempre me faltou para criar um blog: um propósito.

A ideia principal é manter um registro da minha viagem e escrever sobre alguns dos acontecimentos que me fizeram chegar a esse resultado. Espero mantê-los entretidos nas minhas aventuras e desventuras. Se se interessarem em me acompanhar, agradeço desde já.

Brenda